domingo, 17 de outubro de 2010

Descriminalização do Aborto

Por Samantha Buglione, Universia - 31/08/2005


Descriminalizar o aborto não significa promover o aborto, mas significa perceber que a via penal não é a melhor forma de tratar a questão. Para compreender o que significa sair da via penal um bom exemplo é o adultério. O adultério deixou de ser crime este ano no Brasil. A sua descriminalização não implica no seu aceite moral ou que a sociedade brasileira passou incentivá-lo, ou, ainda, que com a descriminalização, o numero de adultérios irá aumentar. O aborto, ao contrário do adultério, sempre será um tema limite. Causa polêmicas apaixonadas por lidar com questões delicadas como vida, morte, pessoa e humanidade. No entanto, tem incríveis semelhanças com o adultério, uma delas é o fato de que é uma prática, apesar de condenada, pouco penalizada.

Se compararmos o número de abortos feitos e o número de processos se encontrará uma enorme discrepância. Nos últimos dez anos não se contabiliza, no Brasil, mais de 15 processos por aborto. A relação com o adultério nos serve, principalmente, para compreender o sentido da descriminalização. Criminalizar o adultério ocorria não apenas para proteger a moral familiar, mas a propriedade. Ou seja, era o meio de garantir que a mulher não teria filhos fora do casamento. Tanto que os casos de adultério feminino que culminavam com a morte da mulher pelo marido ultrajado em regra geravam absolvições com o lamentável argumento de "legítima defesa da honra", que nada mais é do que uma infeliz construção retórica pelo Direito. A intenção em trazer este exemplo é fazer pensar que a criminalização do aborto não ocorre, apenas, para proteger a vida. Se assim fosse, se a vida fosse um bem tão precioso à sociedade brasileira os vários permissivos deveriam ser repensados, como também as nossas práticas cotidianas (principalmente as relacionadas ao meio ambiente). A questão chave é que criminalizar o aborto é uma forma de negar a chamada autonomia reprodutiva da mulher. Um tema igualmente delicado porque implica no reconhecimento de poder para um grupo historicamente compreendido como um sujeito de segunda categoria ou "relativamente incapaz". Além disso, a descriminação que decorre da proibição do aborto é de classe e de geração. Isto é, na sua maioria são mulheres pobres e jovens que realizam o aborto em situações de risco de vida e que podem vir a sofrem possíveis processos.

Mulheres e casais com condições econômicas razoáveis não sofrerão riscos à saúde tampouco o julgamento moral da sociedade, uma vez que isto será feito no silêncio do mundo privado. Apenas para constar: um aborto clandestino feito com segurança varia, em média, de R$ 1.500 a R$ 4.000 reais. Segundo dados do Dossiê Aborto de 2005 esta é a 5ª causa de morte materna no Brasil. Ademais, conforme dados do SUS, são cerca de 238 mil curetagens decorrentes de aborto por ano, cada uma ao custo médio de R$ 125,00; ficaram daí excluídos, por exemplo, os custos com internações por período superior a 24 horas, os gastos com UTI e os recursos necessários ao atendimento de seqüelas decorrentes do aborto clandestino.

Do ponto de vista prático, a criminalização do aborto, além de não proteger a vida do feto, gera a morte de mulheres e gastos desnecessários para o Estado. O que se quer evidenciar neste breve ensaio é que a via penal não é, neste caso, o meio mais eficiente para proteger a vida, ao contrário. Não se está, com a descriminalização do aborto, afirmando que o feto não tem direito à vida, ou que não é pessoa. O fato é que defender a descriminalização significa, em síntese: a) exigir do Estado outros meios para evitar a morte dos fetos, ou seja, políticas preventivas de educação, acesso à saúde, acesso à métodos contraceptivos, minimizar os índices de pobreza e b) que no conflito entre os direitos do feto e da mulher ou do casal o direito à autonomia desta mulher irá prevalecer. Novamente, não se está promovendo a morte, apenas questionando a nossa prática, afinal, se a vida fosse, realmente, um bem absoluto, não poderia, em nenhuma hipótese, ser preterida por outros direitos, interesses ou estado de necessidade. O que se quer afirmar, por fim, é que o crime de aborto promove mais a morte do que a vida e viola um pressuposto básico da dignidade humana: a liberdade. O Brasil, através da Comissão Tripartite, composta por representantes dos Poderes Executivo, Legislativo e da Sociedade Civil, objetiva pensar, de forma democrática o posicionamento da sociedade brasileira. O risco é que a hipocrisia das nossas práticas se sobrepunha à capacidade de analisar o problema com praticidade e bom senso.

Política e Religião

A nossa sociedade é envolvida por diversas religiões. O mundo inteiro possui crenças. O Estado já esteve atrelado as religiões, em partes da Europa e na América do Sul, o catolicismo, no Oriente, o islamismo, na América do Norte, o protestantismo, e assim por diante.

Com o advento da sociedade moderna a maioria dos Estados se tornaram laicos, as religiões passaram a ter uma parcela menor de contribuição, inclusive no Brasil, um país que teve quase 90% de católicos.

Uma nova corrente filosófica-religiosa se forma atualmente no Brasil, a classe dos evangélicos, mais parecido com fundamentalistas islâmicos. Essa classe é formada pelas igrejas: Universal do Reino de Deus, Renascer, Internacional da Graça de Deus entre outras. E o mais agravante, esse povo está entrando na política.

Quando política se junta com religião, a coisa fede, é igual água e óleo, não se misturam. A Igreja não pode mandar no Estado, a Igreja não pode proibir o que lemos, o que vemos, o que discutimos.

Dois casos absurdos que aconteceram este ano, em pleno século XXI:

1 - erotismo e sexualidade viraram temas vulgares. O governo do estado de São Paulo distribui, nas escolas estaduais, o livro paradidático - "Os cem melhores contos brasileiros do século", entre os autores, desde Machado de Assis, Clarisse Lispector, Lima Barreto, Graciliano Ramos, Carlos Drummond de Andrade, Lygia Fagundes Telles, Ignácio de Loyola Brandão, entre outros. Este último com o conto "Obscenidades para uma dona de casa". Um conto magnífico de estrutura ímpar, onde o autor abordo a sexualidade da maioria das mulheres donas-de-casas; os desejos, fantasias, o que todos os cidadãos guardam para si. Mas eis que o pai de uma das alunas de um colégio estadual criticou veemente, o fato da escola distribuir um livro com esse "sexo explícito" para as doces e pobres crianças do ensino médio. Há mais pornográfia na teve do que nesse conto que nem de longe é pornográfico.

2 - a proibição do aborto. no Brasil, o aborto é uma questão gravíssima de saúde pública. 31% das grávidas no Brasil praticam aborto. Até que ponto essa prática é aceitável? Onde começa a vida? Vários assuntos envolvem esse tema, mas que deveria haver uma descriminalização da prática, isso deveria. Agora que esse tema não deveria ter se tornado o assunto de debate eleitoral, está mais que evidente.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Como acabar com um candidato a deputado federal, sutilmente

Retirado da Folha.com
Fernando Gallo

"Suellem Aline Mendes Silva, também Mulher Pêra, 23, foi convidada a se candidatar a deputada federal pelo PTN, partido presidido por José de Abreu, dono da antiga rádio Atual, de São Paulo, onde ela recitava poemas de amor.

Assim como Tiririca, a candidata admite: não sabe quais são os ideais e propostas de seu partido.


Mulher Pêra tem como uma das principais bandeiras a diminuição do Imposto de Renda para empresas que contratarem jovens sem experiência. Mas não sabe dizer em quanto o tributo seria reduzido.

Sobre os apoios que tem nessa eleição, cita o marido, que é candidato a deputado estadual, e o senador Eduardo Suplicy (PT-SP), que recomendou voto nela.
 
Diz que está pagando a campanha do próprio bolso e fazendo corpo a corpo nas ruas. "Saio de roupinha curta, tudo. É o meu estilo de pedir votos".


Por que você decidiu se candidatar?
Tive o convite do presidente do partido, sr. José de Abreu, e resolvi fazer uma enquete nos bailes funk. Faços shows no Brasil todo. Eu perguntava pra galera se eles tinham em mente alguém pra votar. E ninguém sabia responder. Aí eu perguntei: "e se eu me candidatasse, vocês votariam em mim?" Todo mundo me apoiou. Foi aí que começou.

Você procurou o partido ou foi procurada?
Eles que me procuraram.

Como foi?
Eu já conhecia o sr. José de Abreu há muito tempo. Trabalhei na rádio que ele tinha antigamente, a Rádio Atual. Eu recitava poemas de segunda a sábado. Aí depois a rádio fechou, saí... eu conhecia ela há muito tempo. Fiquei amiga dele.

Você falou que recitava poemas?
Isso, trabalhei um ano e meio na rádio.

Que tipos de poema você recitava?
Poemas de amor.

Você já conhecia o PTN?
Não, não conhecia.

Sabe o que o PTN propõe, como se situa na política?
O PTN é um partido pequeno, tem pouco espaço no horário político, tem pouco tempo pra falar. É só isso o que eu sei do PTN. Só isso que eu posso dizer.

Mas você sabe quais são as bandeiras, a luta política?
Não, não sei.

Você não acha que isso seria importante?
Bom, eu tô focada nos jovens. O meu interesse é nos jovens. Tenho vários projetos para os jovens.

Tem algum projeto concreto que você queira levar para a Câmara?
O incentivo do primeiro emprego pro jovem sem experiência. A empresa que contratar o jovem sem experiência terá diminuído o valor do Imposto de Renda. Tem também internet de graça não só nas escolas, como na casa das pessoas. Seria uma forma de tirar aquelas crianças, aqueles adolescentes que ficam na rua se prostituindo, se drogando... seria uma forma de tirar ela das ruas para ficar em casa estudando. Tem também o centro de profissionalização nos bairros e nas grandes cidades. Assim o jovem pode fazer um curso no seu bairro e escolher a sua profissão.

Então vamos por partes. Com relação ao primeiro emprego, já há algum tempo o governo federal tenta incentivar a contratação de jovens que não tem experiência por meio do programa Primeiro Emprego, mas isso não tem funcionado direito. No que o teu projeto...
[interrompendo] Só que eu penso assim, pra cada jovem sem experiência que a empresa contrata, diminui o valor do Imposto de Renda. Isso daí seria ótimo pra empresa.

E você quer diminuir o imposto em quanto?
Em quanto? Aí, peraí, só um minuto. [Vira-se e pergunta para o marido, o radialista Edy Lopes, candidato a deputado estadual]. Então, por enquanto isso daí eu não tenho concreto, não. Os meus assessores é que vão saber explicar melhor.

Quem te assessora na parte legislativa?
Então, eu tô com o meu marido, que é candidato a deputado estadual. Também tem o apoio do senador Eduardo Suplicy [PT-SP]. Inclusive ele gravou até uma mensagem pra eu colocar no meu site pedindo votos para mim. E é isso daí. Tô aprendendo bastante na política.

Do próprio PTN não tem ninguém que te assessore?
Não. Teve a coligação do PTN com o PT, a gente ainda está conversando sobre isso. Por enquanto não posso te falar nada, mas ainda estamos em conversas. [O período para formação de coligações já terminou e PT e PTN estão coligados no Estado de São Paulo].

Quem financia a sua campanha?
Por enquanto não tem ninguém. Tô tirando tudo do meu bolso. Ainda não coloquei a conta do banco no meu site.

Você tem ideia de quanto já gastou?
Ah, bastante, viu? Muito, muito, muito.

Na sua declaração ao TSE aparece um único bem. Um carro Mercedes de R$ 20 mil reais. Isso tá certo?
Isso mesmo. O único bem que eu tenho é o Mercedes. Teve um problema aí com o carro. Eu dei a Mercedes pra um colaborador vender pra mim e ele sumiu com o carro. Agora tô com um carro emprestado.

Era um carro novo?
A Mercedes é nova.

Você diz que pagou R$ 20 mil nela?
Isso.

O que você conhece sobre a atividade de deputado?
Bom, o deputado faz projetos de lei para o governo.

E o que mais?
Bom, que eu saiba é isso. Sinceramente eu nunca gostei de votar. Porque os candidatos, antes de se elegerem, fazem corpo a corpo, falam várias coisas e quando são eleitos não fazem nada pela gente.

Você pretende ser a Mulher Pêra ou a Suéllem na Câmara?
Se eu for eleita, quem vai estar lá é a Suéllem.

E por que você se candidata como Mulher Pêra?
Porque eu sou conhecida como a Mulher Pêra. Inclusive saio nas ruas pedindo votos, fazendo corpo a corpo, como Mulher Pêra. Saio de roupinha curta, tudo. É o meu estilo de pedir votos. Todo mundo só conhece a Mulher Pêra. Através dela vão conhecer a Suéllem.

Quem são os seu espelhos na política?
A Dilma. Inclusive vou votar nela.

O que você conhece sobre a Dilma?
Ela tem ótimos projetos de jovens. Inclusive, falou até dos centros de profissionalização, que é uma coisa que eu concordo com ela.

Você teme o deboche?
Acho que é pelo fato de ser a Mulher Pêra. Mas eu quero mostrar o meu outro lado. O meu lado de pessoa comum, que é a Suéllem. As pessoas pensam: "ah, ela deve sair de shortinho curto na rua". Não. Eu sou uma pessoa normal como qualquer outra. E eu quero mostrar isso para o Brasil inteiro.

Você está com que idade?
23.

Então você votou na última eleição.
Votei, mas nem lembro. Nunca gostei de votar. Os políticos prometem, falam, falam e nunca cumprem nada.

Então você não sabe em quem votou para deputado na última eleição.
Nem me lembro. Mas eu votei no Lula.

Mais alguma coisa que eu não te perguntei e você gostaria de dizer a respeito da sua candidatura?
Você quer que eu cante o meu jingle? Eu acho ele legal.

Como é?
[cantando] "A comunidade diz, vote na Pêra pra ser feliz! A comunidade diz, vote na Pêra pra ser feliz!" Se você puder colocar, eu agradeço.

Como eu te apresento? Como dançarina?
Ah, pode... Cantora. Eu sou cantora.

domingo, 26 de setembro de 2010

Toy Story 3 - A Arte da fazer animação

Ouso dizer que a trilogia Toy Story é a melhor sequência de animação feita na história da sétima arte.

Uma história que começou em 1995 com o lançamento do primeiro filme produzido pela Disney em parceria com a Pixar. Toy story é um pouco da nossa infância, nos vemos dentro do filme, é a história da criança com seu brinquedo preferido, é a primeira amizade que a gente faz na vida. Andy e Woody se misturam com o nosso cotidiano.

Como não se identificar com uma história dessa? A nossa geração foi modificada com esse filme, nos fomos agraciados com o teor que o filme nos passa.

Eis que em 2010, 15 anos após o primeiro longa metragem, a história é finalizada com o terceiro filme da série. Um presente para os fãs do Toy Story. Mas aqui cabe uma ressalva, de modo algum esse filme não é para criança, esse filme é para a geração do primeiro. Nisso os produtores tiveram uma sacada genial, ou não, para fazer o lançamento dos filmes. Conforme Andy cresce nós também crescemos, e para quem é feito o filme? Para nós, a geração Toy Story.

O filme é esplêndido e ao mesmo tempo triste, da uma sensação de nostalgia, corta a alma, desperta os sentimentos de criança no adulto. Como imaginar o fim de uma história? Como não fazer essa relação de fim com a morte? Por um momento eu achei que eles "morreriam", e pensei: esse será o fim?

Para meu espanto o fim do filme foi totalmente imprevisível e bem elaborado. Confesso que esse filme me tocou na alma, e para quem nunca tinha chorado assistindo um filme, foi uma sensação estranha sentir os olhos marejados nos minutos finais do filme.

Ainda não sei qual será a marca que esse filme deixará na humanidade, mas uma coisa eu tenho certeza absoluta, que ele irá deixar marcas, isso ninguém pode negar!

"Ao infinito e além!"

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Independência do que?

"...Ou ficar a pátria livre, ou morrer pelo Brasil"? - 07/07/1822

Já podeis, da Pátria filhos, 
Ver contente a mãe gentil; 
Já raiou a liberdade 
No horizonte do Brasil. 

Brava gente brasileira! 
Longe vá... temor servil: 
Ou ficar a pátria livre 
Ou morrer pelo Brasil. 

Os grilhões que nos forjava 
Da perfídia astuto ardil... 
Houve mão mais poderosa: 
Zombou deles o Brasil. 

Brava gente brasileira! 
Longe vá... temor servil: 
Ou ficar a pátria livre 
Ou morrer pelo Brasil. 

Não temais ímpias falanges, 
Que apresentam face hostil; 
Vossos peitos, vossos braços 
São muralhas do Brasil. 

Brava gente brasileira! 
Longe vá... temor servil: 
Ou ficar a pátria livre 
Ou morrer pelo Brasil. 

Parabéns, ó brasileiro, 
Já, com garbo varonil, 
Do universo entre as nações 
Resplandece a do Brasil. 

Brava gente brasileira! 
Longe vá... temor servil: 
Ou ficar a pátria livre 
Ou morrer pelo Brasil.

sábado, 28 de agosto de 2010

Obscenidades para uma dona-de-casa

Ignácio de Loyola Brandão


Esse texto foi publicado no livro "Os melhores contos de Ignácio de Loyola Brandão", e posteriormente publicado em "Os cem melhores contos brasileiros do século".
Este último livro, atualmente, é distribuído gratuitamente, no ensino médio das escolas públicas. Nesta semana que se passou, um pai de uma aluna da rede pública reclamou do teor do conto. O conto é erótico, sensual e não pornografia como alega esse cidadão. Isto se deve a banalização do sexo na sociedade e a falta de conversa entre pais e filhos sobre o assunto sexualidade.

Eis o texto:

Três da tarde ainda, ficava ansiosa. Andava para lá, entrava na cozinha, preparava nescafé. Ligava televisão, desligava, abria o livro. Regava a planta já regada, girava a agenda telefônica, à procura de amiga a quem chamar. Apanhava o litro de martíni, desistia, é estranho beber sozinha às três e meia da tarde. Podem achar que você é alcoólatra. Abria gavetas, arrumava calcinhas e sutiãs arrumados. Fiscalizava as meias do marido, nenhuma precisando remendo. Jamais havia meias em mau estado, ela se esquecia que ele é neurótico por meias, ao menor sinal de esgarçamento, joga fora. Nem dá aos empregados do prédio, atira no lixo.

Quatro horas, vontade de descer, perguntar se o carteiro chegou, às vezes vem mais cedo. Por que há de vir? Melhor esperar, pode despertar desconfiança. Porteiros sempre se metem na vida dos outros, qualquer situação que não pareça normal, ficam de orelha em pé. Então, ele passará a atenção no que o carteiro está trazendo de especial para a mulher do 91 perguntar tanto, com uma cara lambida. Ah, aquela não me engana! Desistiu. Quanto tempo falta para ele chegar? Ela não gostava de coisas fora do normal, instituiu sua vida dentro de um esquema nunca desobedecido, pautara o cotidiano dentro da rotina sem sobressaltos. Senão, seria muito difícil viver. Cada vez que o trem saía da linha, era um sofrimento, ela mergulhava na depressão. Inconsolável, nem pulseiras e brincos, presentes que o marido trazia, atenuavam.

Na fossa, rondava como fera enjaulada, querendo se atirar do nono andar. Que desgraça se armaria. O que não diriam a respeito de sua vida. Iam comentar que foi por um amante. Pelo marido infiel. Encontrariam ligações com alguma mulher, o que provocava nela o maior horror. Não disseram que a desquitada do 56 descia para se encontrar com o manobrista, nos carros da garagem? Apenas por isso não se estatelava alegremente lá embaixo, acabando com tudo.

Quase cinco. E se o carteiro atrasar? Meu deus, faltam dez minutos. Quem sabe ela possa descer, dar uma olhadela na vitrine da butique da esquina, voltar como quem não quer nada, ver se a carta já chegou. O que dirá hoje? Os bicos dos teus seios saltam desses mamilos marrons procurando a minha boca enlouquecida. Ficava excitada só em pensar. A cada dia as cartas ficam mais abusadas, entronas, era alguém que escrevia bem, sabia colocar as coisas. Dia sim, dia não, o carteiro trazia o envelope amarelo, com tarja marrom, papel fino, de bom gosto. Discreto, contrastava com as frases. Que loucura, ela jamais imaginara situações assim, será que existiam? Se o marido, algum dia, tivesse proposto um décimo daquilo, teria pulado da cama, vestido a roupa e voltado para casa da mãe. Que era o único lugar para onde poderia voltar, saíra de casa para se casar. Bem, para falar a verdade, não teria voltado. Porque a mãe iria perguntar, ela teria que responder com honestidade. A mãe diria ao pai, para se desabafar. O pai, por sua vez, deixaria escapar no bar da esquina, entre amigos. E homem, sabe-se como é, é aproveitador, não deixa escapar ocasião de humilhar a mulher, desprezar, pisar em cima.

As amigas da mãe discutiriam o episódio e a condenariam. Aquelas mulheres tinham caras terríveis. Ligou outra vez a tevê, programa feminino ensinando a fazer cerâmica. Lembrou-se que uma das cartas tinha um postal com cenas da vida etrusca, uma sujeira inominável, o homem de pé atrás da mulher, aquela coisa enorme no meio das pernas dela. Como podia ser tão grande? Rasgou em mil pedaços, pôs fogo em cima do cinzeiro, jogou tudo na privada. O que pensavam que ela era? Por que mandavam tais cartas, cheias de palavras que ela não ousava pensar, preferia não conhecer, quanto mais dizer. Uma vez, o marido tinha dito, resfolegante, no seu ouvido, logo depois de casada, minha linda bocetinha. E ela esfriou completamente, ficou dois meses sem gozar.

Nem dizia gozar, usava ter prazer, atingir o orgasmo. Ficou louca da vida no chá de cozinha de uma amiga, as meninas brincando, morriam de rir quando ouviam a palavra orgasmo. Gritavam: como pode uma palavra tão feia para uma coisa tão gostosa? Que grosseria tinha sido aquele chá, a amiga nua no meio da sala, porque tinha perdido no jogo de adivinhação dos presentes. E as outras rindo e comentando tamanhos, posições, jeitos, poses, quantas vezes. Mulher, quando quer, sabe ser pior do que homem. Sim, só que conhecia muitas daquelas amigas, diziam mas não faziam, era tudo da boca para fora. A tua boca engolindo inteiro o meu cacete e o meu creme descendo pela tua garganta, para te lubrificar inteira. Que nojenta foi aquela carta, ela nem acreditava, até encontrou uma palavra engraçada, inominável. Ah, as amigas fingiam, sabia que uma delas era fria, o marido corria como louco atrás de outras, gastava todo o salário nas casas de massagens, em motéis. E aquela carta que ele tinha proposto que se encontrassem uma tarde no motel? Num quarto cheio de espelhos, para que você veja como trepo gostoso em você, enfiando meu pau bem no fundo. Perdeu completamente a vergonha, dizer isso na minha cara, que mulher casada não se sentiria pisada, desgostosa com uma linguagem destas, um desconhecido a julgá-la puta, sem nada a fazer em casa, pronta para sair rumo a motéis de beira de estrada. Para que lado ficam?

Vai ver, um dos amigos de meu marido, homem não pode ver mulher, fica excitado e é capaz de trair o amigo apenas por uma trepada. Vejam o que estou dizendo, trepada, como se fosse a coisa mais natural do mundo.

Caiu em si raciocinando se não seria alguém a mando do próprio marido, para averiguar se ela era acessível a uma cantada. Meu deus, o que digo? Fico transtornada com estas cartas que chegam religiosamente, é até pecado falar em religião, misturar com um assunto deste, escabroso. E se um dia o marido vier mais cedo para casa, apanhar uma das cartas, querer saber? Qual pode ser a reação de um homem de verdade, que se preze, ao ver que a mulher está recebendo bilhetes de um estranho? Que fala em coxas úmidas como a seiva que sai de você e que eu provoquei com meus beijos e com este pau que você suga furiosamente cada vez que nos encontramos, como ontem à noite, em pleno táxi, nem se importou com o chofer que se masturbava. Sua louca, por que está guardando as cartas no fundo daquela cesta? A cesta foi a firma que mandou num antigo natal, com frutas, vinhos, doces, champanhe. A carta dizia deixo champanhe gelada escorrer nos pêlos da tua bocetinha e tomo em baixo com aquele teu gosto bom. Porcaria, deixar champanhe escorrer pelas partes da gente. Claro, não há mal, sou mulher limpa, de banho diário, dois ou três no calor. Fresquinha, cheia de desodorante, lavanda, colônia. Coisa que sempre gostei foi cheirar bem, estar de banho tomado. Sou mulher limpa. No entanto, me pediu na carta: não se esfregue desse jeito, deixe o cheiro natural, é o teu cheiro que quero sentir, porque ele me deixa louco, pau duro. Repete essa palavra que não uso. Nem pau, nem pinto, cacete, caralho, mandioca, pica, piça, piaba, pincel, pimba, pila, careca, bilola, banana, vara, trouxa, trabuco, traíra, teca, sulapa, sarsarugo, seringa, manjuba.

Nenhuma. Expressões baixas. A ele, não se dá nenhuma denominação. Deve ser sentido, não nomeado. Tem gente que adora falar, gritar obscenidades, assim é que se excitam, aposto que procuram nos dicionários, para encontrar o maior número de palavras. Os homens são animais, não sabem curtir o amor gostoso, quieto, tranqüilo, sem gritos, o amor que cai sobre a gente como a lua em noite de junho. Assim eram os versinhos no almanaque que a farmácia deu como brinde, no dia dos namorados. Tirou o disco da Bethânia, comprou um LP só por causa de uma música, Negue. Ouvia até o disco rachar, adorava aquela frase, a boca molhada ainda marcada pelo beijo seu. Boca marcada, corpo manchado com chupadas que deixam marcas pretas na pele. Coisas de amantes. Esse homem da carta deve saber muito. Um atleta sexual. Minha amiga Marjori falou de um artista da televisão. Podia ficar quantas horas quisesse na mulher. Tirava, punha, virava, repunha, revirava, inventava, as mulheres tresloucadas por ele. Onde Marjori achou estas besteiras, ela não conhece ninguém de tevê?

Interessa é que a gente assim se diverte. Se bem que se possa divertir, sem precisar se sujeitar a certas coisas. Dessas que a mulher se vê obrigada, para contentar o marido e ele não vá procurar outras. Que diabo, mulher tem que se impor! Que pensam que somos para nos utilizarem? Como se fôssemos aparelhos de barba, com gilete descartável. Um instrumento prático para o dia-a-dia, com hora certa! Como os homens conseguem fazer barba diariamente, na mesma hora? Nunca mudam. Todos os dias raspando, os gestos eternos. É a impressão que tenho quando entro no banheiro e vejo meu marido fazendo a barba. Há quinze anos, ele começa pelo lado direito, o esquerdo, deixa o queixo para o fim, apara o bigode. Rio muito quando olho o bigode. Não posso esquecer um dia que os pelinhos do bigode me rasparam, ele estava com a cabeça entre as minhas pernas, brincando. Vinha subindo, fechei as pernas, não vou deixar fazer porcarias deste tipo. Quem pensa que sou? Os homens experimentam, se a mulher deixa, vão dizer que sou da vida. Puta, dizem puta, mas é palavra que me desagrada. E o bigode faz cócegas, ri, ele achou que eu tinha gostado, quis tentar de novo, tive de ser franca, desagradável. Ele ficou mole, inteirinho, durante mais de duas semanas nada aconteceu. O que é um alívio para a mulher. Quando não acontece é feriado, férias. Por que os homens não tiram férias coletivas? Ia ser tão bom para as mulheres, nenhum incômodo, nada de estar se sujeitando. Na carta de anteontem ele comentava o tamanho de sua língua, que tem ponta afiada e uma velocidade de não sei quantas rotações por segundo. Esse homem tem senso de humor. É importante que uma pessoa brinque, saiba fazer rir. O que ele vai fazer com uma língua a tantas mil rotações? Emprestar ao dentista para obturar dentes? Outra coisa engraçada que a carta falou, só que esta é uma outra carta, chegou no mês passado, num papel azul bonito: queria me ver de meias pretas e ligas. Ridículo, mulher nua de pé no meio do quarto, com meias pretas e ligas. Nem pelada nem vestida. E se eu pedisse a ele que ficasse de meias e ligas? Arranjava uma daquelas ligas antigas, que meu avô usava e deixava o homem pelado com meias. Igual fazer amor de chinelos. Outro dia, estava vendo o programa do Sílvio Santos, no domingo. Acho o domingo muito chato, sem ter o que fazer, as crianças vão patinar, meu marido passa a manhã nos campos de várzeas, depois almoça, cochila, e vai fazer jockeyterapia. Ligo a televisão, porque o programa Sílvio Santos tem quadros muito engraçados. Como o dos casais que respondem perguntas, mostrando que se conhecem. O Sílvio Santos perguntou aos casais se havia alguma coisa que o homem tivesse tentado fazer e a mulher não topou. Dois responderam que elas topavam tudo. Dois disseram que não, que a mulher não aceitava sugestões, nem achava legal novidade. A que não topava era morena, rosto bonito, lábio cheio e dentes brancos, sorridente, tinha cara de quem topava tudo e era exatamente a que não. A mulher franzina, de cabelos escorridos, boca murcha, abriu os olhos desse tamanho e respondeu que não havia nada que ele quisesse que ela não fizesse e a cara dele mostrava que realmente estavam numa boa. Parece que iam sair do programa e se comer.

Como se pode ir a público e falar desse jeito, sem constrangimento, com a cara lavada, deixando todo mundo saber como somos, sem nenhum respeito? Há que se ter compostura. Ouvi esta palavra a vida inteira, e por isso levo uma vida decente, não tenho do que me envergonhar, posso me olhar no espelho, sou limpa por dentro e por fora. Talvez por isso me lave tanto, para me igualar, juro que conservo a mesma pureza de menina encantada com a vida. Aliás, a vida não me desiludiu em nada. Tive pequenos aborrecimentos e problemas, nunca grandes desilusões e nenhum fracasso. Posso me considerar realizada, portanto satisfeita, sem invejas, rancores. Sou uma das mulheres que as famílias admiram neste prédio. Uma casa confortável, bem decorada, qualquer uma destas revistas de onde tiro as idéias podia vir aqui e fotografar, não faria vergonha. Nossa, cinco e meia, se não voar, meu marido chega, o carteiro entrega o envelope a ele, vai ser um sururu. Prestem atenção, veja a audácia do sujo, me escrevendo, semana passada. (Disse que faz três meses que recebo as cartas? Se disse, me desculpem, ando transtornada com elas, não sei mais o que fazer de minha vida, penso que numa hora acabo me desquitando, indo embora, não suporto esta casa, o meu marido sempre na casa de massagens e na várzea, esses filhos com patins, skates, enchendo álbuns de figurinhas e comendo como loucos.) Semana passada o maluco me escreveu: Queria te ver no sururu, ia te pôr de pé no meio do salão e enfiar minha pica dura como pedra bem no meio da tua racha melada, te fodendo muito, fazendo você gritar quero mais, quero tudo, quero que todo mundo nesta sala me enterre o cacete.

Tive vontade de rasgar tal petulância, um pavor. Sem saber o que fazer, fiquei imobilizada, me deu uma paralisia, procurei imaginar que depois de estar em pé no meio da sala recebendo um homem dentro de mim, na frente de todos, não me sobraria muito na vida. Era me atirar no fogão e ligar o gás. Entrei em pânico quando senti que as pessoas poderiam me aplaudir, gritando bravo, bravo, bis, e sairiam dizendo para todo mundo: "sabe quem fode como ninguém? A rainha das fodas?" Eu. Seria a rainha, miss, me chamariam para todas as festas. Simplesmente para me ver fodendo, não pela amizade, carinho que possam ter por mim, mas porque eu satisfaria os caprichos e as fantasias deles. Situações horrendas, humilhantes, desprezíveis para mulher que tem um bom marido, filhos na escola, uma casa num prédio excelente, dois carros.

Apanho a carta, como quem não quer nada, olho distraidamente o destinatário, agora mudou o envelope, enfio no bolso, com naturalidade, e caminho até a rua, me dirijo para os lados do supermercado, trêmula, sem poder andar direito, perna toda molhada. Fico tão ansiosa, deve ser uma doença que me molho toda, o suco desce pelas pernas, tenho medo que escorra pelas canelas e vejam. Preciso voltar, desesperada para ler a carta. O que estará dizendo hoje? Comprei puropurê, tenho dezenas de latas de puropurê. Cada vez que desço para apanhar a carta, vou ao supermercado e apanho uma lata de puropurê. O gesto é automático, nem tenho imaginação de ir para outro lado. Por que não compro ervilhas? Todo mundo adora ervilhas em casa. Se meu marido entrar na despensa e enxergar esse carregamento de puropurê vai querer saber o que significa. E quem é que sabe?

É dele mesmo, o meu querido correspondente. Confesso, o meu pavor é me sentir apaixonada por este homem que escreve cruamente. Querer sumir, fugir com ele. Se aparecer não vou agüentar, basta ele tocar este telefone e dizer: "Venha, te espero no supermercado, perto da gôndola do puropurê." Desço correndo, nem faço as malas, nem deixo bilhete. Vamos embora, levando uma garrafa de champanhe, vamos para as festas que ele conhece. Fico louca, nem sei o que digo, tudo delírio, por favor não prestem atenção, nem liguem, não quero trepar com ninguém, adoro meu marido e o que ele faz é bom, gostoso, vou usar meias pretas e ligas para ele, vai gostar, penso que vai ficar louco, o pau endurecido querendo me penetrar. Corto o envelope com a tesoura, cuidadosamente. Amo estas cartas, necessito, se elas pararem vou morrer. Não consigo ler direito na primeira vez, perco tudo, as letras embaralham, somem, vejo o papel em branco. Ouça só o que ele me diz: Te virar de costas, abrir sua bundinha dura, o buraquinho rosa, cuspir no meu pau e te enfiar de uma vez só para ouvir você gritar. Não é coisa para mulher ler, não é coisa decente que se possa falar a uma mulher como eu. Vou mostrar as cartas ao meu marido, vamos à polícia, descobrir, ele tem de parar, acabo louca, acabo mentecapta, me atiro deste nono andar. Releio para ver se está realmente escrito isso, ou se imaginei. Escrito, com todas as palavras que não gosto: pau, bundinha. Tento outra vez, as palavras estão ali, queimando. Fico deitada, lendo, relendo, inquieta, ansiosa para que a carta desapareça, ela é uma visão, não existe e, no entanto, está em minhas mãos, escrita por alguém que não me considera, me humilha, me arrasa.

Agora, escureceu totalmente, não acendo a luz, cochilo um pouco, acordo assustada. E se meu marido chega e me vê com a carta? Dobro, recoloco no envelope. Vou à despensa, jogo a carta na cesta de natal, quero tomar um banho. Hoje é sexta-feira, meu marido chega mais tarde, passa pelo clube para jogar squash. A casa fica tranqüila, peço à empregada que faça omelete, salada, o tempo inteiro é meu. Adoro as segundas, quartas e sextas, ninguém em casa, nunca sei onde estão as crianças, nem me interessa. Porque assim me deito na cama (adolescente, escrevia o meu diário deitada) e posso escrever outra carta. Colocando amanhã, ela me será entregue segunda. O carteiro das cinco traz. Começo a ficar ansiosa de manhã, esperando o momento dele chegar e imaginando o que vai ser de minha vida se parar de receber estas cartas.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010